quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

19:30


É no balé dessas meninas brancas que deslizam sobre o azul que eu repouso minha alma.
Para quê o dourado no pescoço se posso ter em meus olhos?
Deus da asas apenas para quem sabe voar, caso contrário seria tudo humano.
E se em um bater de asas eu pudesse coletar um fragmento de nuvem clara, escura, meteóros, amanitas, sonho de valsa, pink flowers pra você cheirar.
Se o mundo gira, quem somos nós pra estático ficar?
Se o beija flor suga o néctar, se a antena capta quem sou eu pra te privar?
Visto uma blusa verde, remete a esperança, esperança de encontrar?! Ou seria entender como lidar com sentimentos, computadores, telefonemas, matemática e você?!
Alguém resetou, estou no level 1, como um laranja desbotado.
Eu apago o saldo negativo, me faça um empréstimo de forças! E tudo segue

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Mas na verdade.

Ela sai do trabalho.
Tempo extremamente cinza, mais pesado que as bigornas que caem nas cabeças em desenhos animados. Logo dobrando a esquina uma chuva daquelas que lava o jeans e enxarca a meia se aproxima, ela entra no mercado mais próximo fazendo de conta que vai escapar da chuva, mas na verdade dentro de sua bolsa pequena com um universo aparte tem dez reais.
Um daqueles que você supreendemente deixou na bolsa, mas na verdade tem mais de mil utilidades, como pagar o ônibus, pagar o almoço, pagar a mãe, a mulher do avon, a faculdade e por aí vai.
Mas naquele momento toda a voz do juízo econômico se cala e a única coisa que você pela frente é a praleira com uma caixa de bombons na promoção. "R$2,99" dizia o anúncio. A palavra "promoção" soa como uma oração repentina, ela pega a caixa, já pode até sentir o gosto daquele bombom em especial. "Pi" faz o barulho do caixa, e lá se vai, a nota já não está mais inteira, só resta o desejo de chegar em casa e depois do banho colocar um aquela música e apreciar.
Saindo do mercado, chuva. Foda-se diz ela, e se vai. Como previsto, em menos de cem metros a barra de sua calça já está pesando 2 kilos e seu tênis como um submarino vermelho.
No caminho ela olha o seu reflexo em uma vitrine qualquer, seu cabelo que havia sido pintado há duas semanas já estava parecendo de uma refugiada. E aquela pessoa muito confiante que estava ali alguns dias atrás já não acompanhava mais nessa jornada.
Lembra de seu último relacionamento, falido. Pensa porquê?! Dá um tapa em sua cara e fala! Não você é "foda" ele é um babaca.
Ele falava que ela era linda, seu corpo perfeito, suas curvas de se perder. Então ele termina. E ela cai em um paradoxo daqueles que poucas pessoas tem a capacidade de chegar.
Tudo é muito confuso. E naquele momento ela só quer chegar em casa.
Lembra também da loira alta, com piercing no nariz e no umbigo que foi ao seu trabalho. Ela também tem um piercing no nariz e um no umbigo, mas fica longe do "Sex Appeal" daquela outra mulher. Merda.
Então ela começa a fantasiar que a loira no fundo é burra e babaca, mas sabe que não, no fim ela só teve a sorte de nascer genéticamente favorecida. E se lembra da frase de Renato Russo que diz "Tenho o sex-appeal de uma velhinha de bob no cabelo e penhoar".
Lança mais um "foda-se" e segue. Fica pasma com toda a futilidade e a complexidade de ser humana. Então pensa novamente no cabelo e vê uma farmácia.
Por um segundo pintar o cabelo, tapar aqueles mechas com cor de felório parecia a solução para todo o seu mundo! Tudo iria mudar!
Lembrou que tinha só sete reais na carteira, e uma tinta não tão miserável seria no mínimo mais de 7 reias, lembra também do maldito cartão. "maldito cartão" Vício sádico. Lá se vai minha lucidez.
Entra na farmácia, olha toda aquelas caixas, mulheres sorrindo, promentendo um mundo melhor, onde não há cabelos brancos, cabelos rebeldes, só sorrisos e cores exuberantes. Pega um castanho sóbrio, um daqueles que você vai se arrepender e pensar, "porquê não peguei o preto de uma vez?", passa no caixa "pi" e se vai.
No caminho fica de cara com seu consumismo e sua falta de confiança. Pensa que grandes mulheres como Madre Tereza, Cássia Eller e Virgínia Woolf não eram assim. Mas logo discorda de sua tese e acha que está sendo muito dura com ela mesma, afinal de contas Madre Teresa era freira, Cássia Eller lésbica machão e Virgínia Woolf foi interpretada pela Nicole Kidman o que não é justo.
Então chega em casa. Está sozinha, momentos assim são difíceis, porém vem sendo mais frequentes, em geral, a solidão está mais frequente e agora está virando uma necessidade sua aceitação e harmonia com sigo mesma.
Tira a calça molhada, joga no hall de entraga e sai pulando sobre o piso gelado. Sente suas coxas frias e isso a deixa um tanto excitada. Então, esquece a loira, a Nicole Kidman e todas as mulheres e lembra que para o seu próprio prazer ela se basta. Lembra que nenhum pênis conhece melhor o caminho para o paraíso do que ela mesma. E manda um "foda-se" para todos os seus problemas.
Bota uma música daquelas que só ela gosta muito alto. Dane-se os vizinhos, a castidade, os pecados, a futilidade, o medo , a inveja , a gula , as espinhas , os vícios , as depressões , as dúvidas , o êx. , a pele oleosa , o cabelo ressecado , a cólica, as provas , os relatórios , os pelos na virilha e no buço , o big bang , as experiências com o LHC , as bactérias no chão e as que aspiramos pelo ar. Hoje eu só quero ficar aqui pensou ela.
Abriu a caixa, pegou aquele "em especial" degustou como alguém que está abraçando seu amado nos românces "Julia" da banca. Pintou o seu cabelo, sujando sua nuca e suas mãos. Fez uma seleção de qual cor de esmalte combinaria mais com seu humor, pegou o azul esperança e depositou em suas unhas, cabelos e estômago uma esperança de um amanhã melhor.

Edna de Cássia G.
Música:
Cyndi Lauper - Girls Just Want To Have Fun
Regina Spektor - Lounge
Pato Fu - O filho predileto do Rajneesh

domingo, 26 de setembro de 2010

Deixo

Deixo simplesmente que os pingos de chuva e a vibração da música que sai na caixa ao lado me levem.
Levem qualquer fagulha de dúvida. De tensão. De sentimento que não sei diagnosticar.
Uns entregam na mão de Deus. Outros tentam remecher em suas feridas até sangrar.
No momento deixo o ruído que faz a gota d’água levar tudo isso.
Pensar. Uma vez disse que “ser complexo pode cegar e ser feliz é o que há”.
Canto coisas que ás vezes nem eu mesma sou capaz de fazer. Mas vou tentar.
Afinal, “não venci todos os medos, mas tentei me controlar”.
Pessoas. Pessoas andando, pessoas correndo pela sala, pelo quintal, passam pela rua com seus carros com mais pessoas lá dentro. Todas atrás do quê?! Querendo o quê?
Hoje eu resolvo não pensar nisso. Deixar por um instante que cada um siga o seu rumo, cada um com seus objetivos.
Mas hoje não vou me perder em pensamentos subjetivos.
Vou deixar só a música levar. A imagem me tocar.
Eu preciso me aquietar.
Meu coração sempre me levando pra lugares onde eu não conheço. Sempre inquieto, me tira do meu porto, e vivo sobrevoando portos desconhecidos que tenho medo de atracar. Afinal, lá é um lugar confiável?!
Deixo.
No momento, deixo lançado, quero lançar.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Ao trabalho


Entre os ipês amarelos e os pessegueiros com flores rosadas eu vou.
Uma senhora com cara de figurante do cítio do pica-pau amarelo passa por mim,
deixa a fumaça de seu cigarro para meus pulmões e um enigmático olhar
para eu descifrar. O que será que será, Chico já dizia.

Fumaça de cigarro, fumaça do trator, fumaça do "paiêro", fumaça do motor.
Tudo aqui fica abafado, o nariz seca, o olho chora, a vista cança.
Cidade pequena, cidade grande, pequenos romances as grandes nuances.
No fim os vícios são iguais.
Aqui, São Paulo, Tóquio ou Paquistão.
No fim os vícios são particularmente parecidos.
Afinal, tudo é cidade.
Tudo é pessoa.

Crianças vem ao mundo, a gente já está nele.
Elas se adaptam, a gente se habitua.
Toca o brinquedo barulhento, cheio de cores fabricadas.
Olha é pro céu, pro sol, pro mato. Aproveita enquanto ainda tem tempo.
Novos felinos vem ao mundo, outros vão pro ceu.
Por aqui fico eu.
O que será que será?!
Apenas flores amarelas do ipê caído ao chão.
Flores rosadas e futuros pêssegos.

sábado, 31 de julho de 2010

Sacolas acompanhantes

Todos os dias sacolas brancas são jogadas fora por falta de utilidade e poluem. Uso a sacola reutilizável.

Porém, naquela noite em especial, quando o clima dizia chuva e o céu dizia luz, o vento soprava uma brisa tão fresca no meio do inverno, que fazia com que duvidasse se estava na estação certa algo aconteceu. Início de agosto. Mês de vento, janelas e portas batendo, sol ralo.
Naquela noite, faíscas no céu. Música certa nos ouvidos.
Tudo sutil. Sem dúvida, dádiva maior que a sensibilidade não há.
O vento tocava minha nuca, arrepiava meu corpo, sensibilizava meu espírito, um gato logo a frente cruzava a rua, rua a qual estava sem iluminação de uma esquina a outra só a luz leve das casas e o céu. A lua não aparecia.
O sol se pôs com esplendor. Bola ofuscante que guarda surpresa.
Folhas caindo das árvores, já não sei mais qual estação estamos, talvez fosse uma fenda na realidade, um momento único onde só eu, o gato e a sacola ao meu lado presenciávamos. O vento batendo nas costas, pernas e nuca me levavam, e ao meu lado uma sacola. Minto. Um pacote. Acho que de chip’s. Alguém não o jogou no lixo, reciclou ou algo do tipo, então o seu destino foi me fazer companhia por alguns minutos naquela noite.
Nós dois, no mesmo sentido, rumo?
Ao momento. Congelei tudo.
Ele parou, o vento mudou e ele se foi. Eu fui.
Nós fomos.
Cada um pra um lado diferente, depois disso eu já não sei mais.

domingo, 18 de julho de 2010

Banheira


Líquidos de revelação caindo sobre a mesa, escorre, e corre pelo seu corpo deitado no chão, em estado de relaxamento e vai revelando. Algo que ali não estava tão visível. Faz -se uma releitura de algo que já havia sido lido por demais.
Seu cabelo nem longo, nem curto, se perde entre o assoalho marrom com manchas pretas, que logo vão sujar sua camisa branca, com desenho de gatinho.
O frio preferiu ir embora, deu lugar ao tempo ameno, com nuvens cor de creme, cinzas e rosas. No momento estava tudo ameno. Nem sal, nem açúcar. Sem John e sem Paul.
Abriu seu olhos, lápis preto borrado no canto, fazia parecer olheiras de alguém que foi pra uma noite gótica no centro de São Paulo. Sua voz voltava, seu cheiro voltava, ela acordava.
Havia passado quatro horas. Desde seu desmaio repentino, nem mãe, nem tio.
Por algumas horas tudo foi ar.
O rapaz de capuz azul pegava em suas mãos, depois mostrou uma porta, por onde ela entrou, foi parar em algodão, depois não havia mais corpo físico, só um sentimento de paz, tranquilidade e lucidez.
Algo lhe puxou de volta, toda sua essência foi direcionada ao corpo de uma senhora morena, que estava a se banhar uma grande plantação, em uma banheira branca, com espumas, no alto desse campo, o céu azul, o sol tostando as folhas verdes.
Foi quando sentiu o líquido derramando em seu corpo.
Se levantou ainda tonta, foi ao banheiro, lavou o rosto, olhou-se no espelho e...




O chá.

O chá caiu de suas mãos.
Caiu por todo tapete, queimando todas as formigas que caminhavam por aquele lugar.
Borrou a cor.
Desceu pela madeira, penetrou.
Como um esperma adentrando o óvulo.
Chegou até o nada.
Entrou em contato com outro calor.
Voltou para o copo.
As mãos novamente entornaram o chá.
Que já não mais conseguiu fazer a viajem.