Ela sai do trabalho.
Tempo extremamente cinza, mais pesado que as bigornas que caem nas cabeças em desenhos animados. Logo dobrando a esquina uma chuva daquelas que lava o jeans e enxarca a meia se aproxima, ela entra no mercado mais próximo fazendo de conta que vai escapar da chuva, mas na verdade dentro de sua bolsa pequena com um universo aparte tem dez reais.
Um daqueles que você supreendemente deixou na bolsa, mas na verdade tem mais de mil utilidades, como pagar o ônibus, pagar o almoço, pagar a mãe, a mulher do avon, a faculdade e por aí vai.
Mas naquele momento toda a voz do juízo econômico se cala e a única coisa que você pela frente é a praleira com uma caixa de bombons na promoção. "R$2,99" dizia o anúncio. A palavra "promoção" soa como uma oração repentina, ela pega a caixa, já pode até sentir o gosto daquele bombom em especial. "Pi" faz o barulho do caixa, e lá se vai, a nota já não está mais inteira, só resta o desejo de chegar em casa e depois do banho colocar um aquela música e apreciar.
Saindo do mercado, chuva. Foda-se diz ela, e se vai. Como previsto, em menos de cem metros a barra de sua calça já está pesando 2 kilos e seu tênis como um submarino vermelho.
No caminho ela olha o seu reflexo em uma vitrine qualquer, seu cabelo que havia sido pintado há duas semanas já estava parecendo de uma refugiada. E aquela pessoa muito confiante que estava ali alguns dias atrás já não acompanhava mais nessa jornada.
Lembra de seu último relacionamento, falido. Pensa porquê?! Dá um tapa em sua cara e fala! Não você é "foda" ele é um babaca.
Ele falava que ela era linda, seu corpo perfeito, suas curvas de se perder. Então ele termina. E ela cai em um paradoxo daqueles que poucas pessoas tem a capacidade de chegar.
Tudo é muito confuso. E naquele momento ela só quer chegar em casa.
Lembra também da loira alta, com piercing no nariz e no umbigo que foi ao seu trabalho. Ela também tem um piercing no nariz e um no umbigo, mas fica longe do "Sex Appeal" daquela outra mulher. Merda.
Então ela começa a fantasiar que a loira no fundo é burra e babaca, mas sabe que não, no fim ela só teve a sorte de nascer genéticamente favorecida. E se lembra da frase de Renato Russo que diz "Tenho o sex-appeal de uma velhinha de bob no cabelo e penhoar".
Lança mais um "foda-se" e segue. Fica pasma com toda a futilidade e a complexidade de ser humana. Então pensa novamente no cabelo e vê uma farmácia.
Por um segundo pintar o cabelo, tapar aqueles mechas com cor de felório parecia a solução para todo o seu mundo! Tudo iria mudar!
Lembrou que tinha só sete reais na carteira, e uma tinta não tão miserável seria no mínimo mais de 7 reias, lembra também do maldito cartão. "maldito cartão" Vício sádico. Lá se vai minha lucidez.
Entra na farmácia, olha toda aquelas caixas, mulheres sorrindo, promentendo um mundo melhor, onde não há cabelos brancos, cabelos rebeldes, só sorrisos e cores exuberantes. Pega um castanho sóbrio, um daqueles que você vai se arrepender e pensar, "porquê não peguei o preto de uma vez?", passa no caixa "pi" e se vai.
No caminho fica de cara com seu consumismo e sua falta de confiança. Pensa que grandes mulheres como Madre Tereza, Cássia Eller e Virgínia Woolf não eram assim. Mas logo discorda de sua tese e acha que está sendo muito dura com ela mesma, afinal de contas Madre Teresa era freira, Cássia Eller lésbica machão e Virgínia Woolf foi interpretada pela Nicole Kidman o que não é justo.
Então chega em casa. Está sozinha, momentos assim são difíceis, porém vem sendo mais frequentes, em geral, a solidão está mais frequente e agora está virando uma necessidade sua aceitação e harmonia com sigo mesma.
Tira a calça molhada, joga no hall de entraga e sai pulando sobre o piso gelado. Sente suas coxas frias e isso a deixa um tanto excitada. Então, esquece a loira, a Nicole Kidman e todas as mulheres e lembra que para o seu próprio prazer ela se basta. Lembra que nenhum pênis conhece melhor o caminho para o paraíso do que ela mesma. E manda um "foda-se" para todos os seus problemas.
Bota uma música daquelas que só ela gosta muito alto. Dane-se os vizinhos, a castidade, os pecados, a futilidade, o medo , a inveja , a gula , as espinhas , os vícios , as depressões , as dúvidas , o êx. , a pele oleosa , o cabelo ressecado , a cólica, as provas , os relatórios , os pelos na virilha e no buço , o big bang , as experiências com o LHC , as bactérias no chão e as que aspiramos pelo ar. Hoje eu só quero ficar aqui pensou ela.
Abriu a caixa, pegou aquele "em especial" degustou como alguém que está abraçando seu amado nos românces "Julia" da banca. Pintou o seu cabelo, sujando sua nuca e suas mãos. Fez uma seleção de qual cor de esmalte combinaria mais com seu humor, pegou o azul esperança e depositou em suas unhas, cabelos e estômago uma esperança de um amanhã melhor.
Edna de Cássia G.
Música:
Cyndi Lauper - Girls Just Want To Have Fun
Regina Spektor - Lounge
Pato Fu - O filho predileto do Rajneesh